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Dilma precisa acabar com crise política para país voltar a crescer

Ricardo Leopoldo

 

Agência Estado – 05/08/2015

 

A presidente Dilma Rousseff precisa implodir a agudíssima crise política com urgência. Do contrário, continuidade da progressão geométrica dessa crise poderá levar o País da atual retração muito forte da economia em 2015 a uma recessão plurianual de proporções incalculáveis. O Brasil precisa retomar imediatamente a estabilidade e os horizontes de longo prazo de crescimento.

Cabe à presidente atuar em algumas frentes ao mesmo tempo: reconstruir a base política no Congresso e dialogar com as principais lideranças políticas do País, especialmente com os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Imprescindível também é Dilma Rousseff expor à sociedade seus erros, admitir que é falível, e mostrar uma agenda de expansão do PIB que começará a ocorrer em 2016. Isso vai elevar seu nível de popularidade, o que ajudará na estratégia de aprovação de medidas do ajuste fiscal no Parlamento.

Dilma necessita ter o apoio na Câmara de 80% dos deputados do PT e do PMDB e de cerca de metade dos parlamentares de partidos pequenos que participam de sua base. Isso pode gerar um universo próximo a 220 deputados, um número essencial para a votação de medidas fundamentais para garantir a governabilidade do País, nota o diretor da Arko Advice, Murillo de Aragão.

A articulação política no Congresso precisa ser bem reforçada, sobretudo concedendo pleno poder do vice-presidente Michel Temer, que hoje enfrenta rivalidade do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Uma solução seria mais autonomia a Temer com a substituição de Mercadante pelo atual ministro da Defesa, Jaques Wagner, defende o diretor de mercados emergentes do Eurasia Group, Christopher Garman. Esta ação ajudaria na aproximação de Dilma ao ex-presidente Lula, movimento indispensável para ter de fato o PT ao lado do governo.

O diálogo de Dilma com lideranças do País deve ser bem amplo. É fundamental conversar de forma franca e desarmada com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a tem em boa conta e a considera honrada. A distensão entre os dois lados é necessária e falta um gesto do Palácio do Planalto nessa direção. FHC tem muito a contribuir para a adoção de mudanças importantes no Congresso. Se a relação entre ele e a presidente estivesse em patamares mais razoáveis desde o início do seu segundo mandato, provavelmente o PSDB não teria votado pelo fim do fator previdenciário, mecanismo criado na administração de Fernando Henrique.

A presidente Dilma Rousseff também deve ter comunicação direta e clara com a população. Para voltar a ter o apoio de boa parte do povo, a presidente precisaria admitir que a economia hoje não está bem porque seu governo cometeu erros. Um dos principais foi não ter viabilizado uma ampliação substancial dos investimentos no seu primeiro mandato, fato que motivou o governo a ter aumentado muito os gastos, mas que provocou desequilíbrios, como inflação, juros e déficit nominal bastante elevados.

À opinião pública em geral, a presidente deveria dizer que a política econômica está em processo de correção, especialmente a gestão fiscal. Se muitos brasileiros entenderem quanto é emergencial a retificação das contas da União, com, por exemplo, a redução substancial de R$ 25 bilhões de renúncia tributária gerada pela desoneração da folha de pagamento, uma parcela de políticos no Congresso contrária a tal mudança poderá rever suas posições e aprová-la, aponta a pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional de Washington, Monica Baumgarten de Bolle.

Neste segundo mandato, a presidente Dilma fez alterações importantes que merecem destaque. A mudança do patamar do câmbio de R$ 3,00 para R$ 3,30 foi deliberada para reduzir o excessivo déficit de transações correntes, que atingiu US$ 91,3 bilhões em 2014, mesmo com uma expansão de apenas 0,1% do produto interno bruto no ano passado. A atual marca de R$ 3,47 do dólar foi atingida em boa medida pela piora da grave crise política e da economia, que levaram à redução da meta do superávit primário de 1,1% para 0,15% do PIB neste ano e deflagrou em muitos investidores internacionais a certeza de que o Brasil perderá em breve o grau de investimento. E isso é retratado em diversos ativos financeiros, como o CDS de 5 anos do País, que atingiu 300 pontos nesta terça-feira.

O Palácio do Planalto necessita mostrar à sociedade que há um cenário de crescimento gradual a partir do próximo ano com dois elementos: a agenda de investimentos em infraestrutura e ampliação das exportações e redução das importações propiciadas pelo novo nível do câmbio real, aponta o ex-Secretário de Política Econômica, Luiz Gonzaga Belluzzo. Ele advoga também que o Poder Executivo tente equacionar os problemas de grandes empresas de construção civil afetadas pelo escândalo de corrupção da Petrobras para que elas continuem operando, ao mesmo tempo que transcorrem as ações da Justiça relativas à Operação Lava Jato.

A realização de leilões de concessões públicas em logística e transportes de forma regular a partir do início de 2016 será muito relevante para retomar a expansão da Formação Bruta de Formação Bruta de Capital Fixo, o que ajudará na melhora do consumo das famílias, redução de estoques indesejados das companhias e retomada dos investimentos, aponta o economista-chefe da consultoria LCA, Braulio Borges.

Mas a confiança dos cidadãos e de empresários na economia apenas retornará a partir da estabilidade política. A presidente Dilma Rousseff precisa atuar nessa frente com afinco, pois ela é uma condição basilar para que a gravíssima crise seja substituída pelo cenário de duradouro desenvolvimento da economia e de indicadores sociais.