Como financiar a política e as eleições
2015-04-30
Ação de Levy no Congresso facilita aprovação de ajuste, diz pesquisa
2015-05-11

Duas moedas com a mesma face

Blog do Noblat – 01/05/2015

Em política, não há amizade que dure nem inimizade que perdure. DEM e PTB estão discutindo uma fusão. Ranier Bragon, da Folha de S.Paulo, fez matéria no domingo (26/4) muito interessante sobre a possibilidade da fusão. A mensagem de Ranier é a de que, no final das contas, o DEM é o herdeiro da UDN, e o PTB, a continuidade do velho PTB.

A UDN tinha Carlos Lacerda como expoente e inimigo figadal de Vargas. O velho PTB foi uma criação de Vargas e tem nele o seu líder e mártir. Sessenta anos depois de seu suicídio e do atentado contra Lacerda, os dois partidos – herdeiros das tradições de ambas personalidades antagônicas – podem ficar juntos.

A questão é recorrente na política brasileira e não é nova. No Rio Grande do Sul, onde se degolavam adversários políticos, chimangos e maragatos – que antes se matavam – se entenderam para apoiar Getúlio Vargas. Este, que era chimango, chegou, pasmem, a usar um lenço vermelho, cor dos maragatos, a caminho do Rio de Janeiro para tomar posse após derrubar Washington Luiz.
Paulo Maluf, inimigo número 1 do PT e de Lula, se juntou ao PT para apoiar, entre juras de amor e respeito, a recente eleição de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo. Em 2014, Maluf declarou apoio a Dilma Rousseff e disse que, perto de Lula, ele era comunista! Maluf é um paradigma. Não tem espinha que não se vergue ao peso do interesse e do poder.

Em 2008, Aécio Neves (PSDB) e Fernando Pimentel (PT) fizeram uma aliança para eleger Marcio Lacerda (PSB) prefeito de Belo Horizonte. A aliança foi contestada pelos partidos de Neves e Pimentel, mas funcionou sem problemas. Anos depois, Aécio e Pimentel voltaram à inimizade. Agora, Pimentel faz uma devassa na gestão do ex-governador Antonio Anastasia, aliado de Aécio.
Lula, em 2006 e 2007, chegou a considerar um movimento político que atraísse Aécio Neves, amigo irmão de Eduardo Campos, para o PSB e fosse o candidato à sua sucessão em 2010. Imaginem a confusão. Aécio, caso raro na política nacional, resistiu e preferiu lutar pela vaga no PSDB contra José Serra.

Em Brasília, Joaquim Roriz, padrinho da maioria dos principais líderes do DF nos últimos tempos, traiu e foi traído por todos eles, a saber: José Roberto Arruda, Tadeu Filipelli, Gim Argello, Bendito Domingos, Paulo Octávio, Luiz Estevão. Uma das mais famosas eminências da política local, Helio Doyle, hoje com o governador Rodrigo Rollemberg, esteve – em algum momento – com quase todos os outros.

Amizade e inimizade na política são uma questão bastante simples de entender e difícil de cidadão comum aceitar. A simplicidade está no fato de inimigos políticos serem amigos pessoais e, não raro, aliados políticos serem inimigos pessoais. No PSDB, as inimizades sempre foram a tônica. Todos falam mal de todos e o ciúme é generalizado. Muitos nunca perdoaram o acaso ter levado FHC à Presidência.

Agora o PMDB vive seus tempos de PSDB. Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha estão desperdiçando a melhor oportunidade do partido de exercer o poder por conta de picuinhas e atritos de importância relativa frente a um projeto maior.
Os acontecimentos relatados mostram, apenas, que amizade e inimizade são duas moedas com as mesmas faces: a imagem do interesse coroada pelo poder.