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É a política, estúpido

Isto É Dinheiro – 10/07/2015

 

No melhor estilo Dilma Rousseff – intempestivamente e sem consultar ninguém –, a presidente da República reagiu, na semana passada, ao que chamou de “golpismo” da oposição, que estaria alimentando a tese de seu afastamento do poder. “Eu não vou cair, eu não vou”, afirmou com veemência à Folha de S. Paulo, na terça-feira 7. E provocou: “Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar.” Desde então, reuniões, telefonemas e cafezinhos entre líderes empresariais incorporaram de vez a crise política na pauta do mundo dos negócios.

Nas palavras de um executivo, que prefere não ser identificado para “não ingressar na lista oficial dos golpistas”, a possibilidade de Dilma não completar o seu segundo mandato foi incluída na lista de riscos que qualquer empresa avalia na hora de decidir um plano de investimentos. “Não é o tipo de notícia que ajuda o ministro Levy a reconstruir a agenda econômica”, diz o executivo, preocupado com o nebuloso cenário político. A cada nova crise detonada no Palácio do Planalto, aumenta o calvário do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Além de ser o porta-voz de um pacote fiscal recessivo, Levy assumiu simultaneamente o papel de articulador político, para aprovar as medidas no Congresso, e o de caixeiro-viajante, para convencer os estrangeiros a investir no Brasil.

Tudo isso, num contexto de paralisia econômica, aumento do desemprego, da inflação e dos juros, além da perda de popularidade da sua chefe, que está no patamar mais baixo desde a era Collor. Não será por falta de empenho, no entanto, que o ministro – que já foi comparado a Judas e a Cristo, mas prefere ser visto como São Cristóvão – deixará de lograr êxito. Há duas semanas, contrariando recomendação médica para que ficasse em repouso, após um quadro de embolia pulmonar, Levy foi aos Estados Unidos para “vender o País”, na mesma viagem em que Dilma se reuniu com o presidente Barack Obama.

Integrante da comitiva de empresários que acompanharam o road show em Washington e Nova York, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, sentiu de perto a desconfiança dos estrangeiros com o noticiário político e policial, incluindo a Operação Lava Jato. “A consequência natural é o adiamento dos investimentos estrangeiros”, diz Barbato. “As pessoas, aqui dentro e lá fora, estão agindo como tartarugas, guardando a cabeça dentro do casco.” O caldeirão político continuará fervendo enquanto não houver o desfecho de dois episódios.

O primeiro é o parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o balanço fiscal de 2014. O órgão deu prazo até o dia 22 deste mês para que o governo explique as “pedaladas fiscais”, nas quais bancos públicos pagaram débitos de responsabilidade do Tesouro Nacional. Se o TCU reprovar as contas, caberá ao Congresso dar a palavra final sobre um eventual crime de responsabilidade fiscal, o que possibilitaria a abertura de um processo de impeachment da presidente. Trata-se, portanto, de um julgamento político. Enquanto isso, na esfera jurídica, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vai decidir se houve abuso de poder político e econômico na campanha de Dilma, em 2014, conforme ação proposta pelo PSDB.

No limite, o TSE pode cassar o diploma da presidente. “Aumentou a probabilidade de queda da Dilma, mas esse ainda não é o cenário mais provável”, diz Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria. Opinião semelhante tem o analista da Arko Advice, Cristiano Noronha, que considera a fragilidade política da presidente Dilma um ônus para a economia. “A crise política torna o ajuste fiscal mais custoso”, afirma Noronha. Em diversas declarações públicas, Levy tem insistido em que o ajuste fiscal é apenas uma travessia para um cenário melhor.

No entanto, algumas derrotas do governo no Congresso, como o reajuste de até 78% para servidores do Poder Judiciário e o aumento real das aposentadorias do INSS, passam a sensação de que o esforço é inócuo. Para piorar, a arrecadação federal está encolhendo na mesma proporção do Produto Interno Bruto (PIB), tornando inviável o cumprimento da meta de superávit primário de 1,1% do PIB, neste ano. Em meio à deterioração do quadro econômico, os índices de confiança de consumidores e empresários caíram a patamares inferiores aos da crise internacional, em 2009.

“Está difícil enxergar o que virá adiante após a travessia”, diz Celso Grisi, presidente do Instituto de Pesquisas Fractal. “Mas é inegável que o Brasil ficou atraente para o estrangeiro por causa da desvalorização cambial.” De olho na ampla liquidez internacional, o governo federal lançou, recentemente, mais uma etapa do programa de concessões em infraestrutura. Como as principais empreiteiras nacionais estão envolvidas na investigação da operação Lava Jato, da Polícia Federal, a expectativa de Levy é atrair novos concorrentes.

“Tem muito investidor de olho em ativos baratos”, diz Antonio Felix de Araujo Cintra, sócio na área de infraestrutura de TozziniFreire Advogados. “Falta só o governo definir a taxa de retorno e soltar os editais.” Se quiser virar o jogo das expectativas, a presidente Dilma terá de comprar algumas brigas com o Congresso Nacional, como o veto a projetos que aumentam os gastos públicos, e interromper a equivocada decisão do Banco Central de elevar os juros, que agrava a recessão. “Até o final do ano vou fazer o diabo para fazer a menor (recessão) possível”, afirmou Dilma.

No mesmo dia em que bradou contra a oposição, a presidente lançou um programa que prevê a redução de jornada de trabalho e salários, em troca da manutenção de postos de trabalho. Metade da conta será paga pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador. “É o melhor caminho para preservar o mercado de trabalho”, diz Luiz Moan, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. No setor de automóveis, caminhões e ônibus, as vendas no primeiro semestre caíram 20,7% e 7.600 funcionários (5,2% do total) foram demitidos.

Além de não ser suficiente para segurar a recessão, a medida foi ofuscada pelo noticiário político. “O discurso golpista é do PT, que não reconhece os instrumentos de fiscalização e de representação da sociedade em uma democracia”, afirmou o senador Aécio Neves (PSDB/MG). Pelo tom das declarações, o debate sobre o impeachment deve permanecer no radar dos empresários nas próximas semanas. Estão programadas novas manifestações populares em agosto. Parafraseando James Carville, assessor do ex-presidente americano Bill Clinton, hoje quem dá as cartas na economia “é a política, estúpido”.