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Falta sincronizar o nado entre as instituições

Exame App – 08/12/2016

Por Lucas de Aragão

 

Vivemos um momento perigoso no Brasil, em que testemunhamos equívocos absolutamente desnecessários promovidos por atores e instituições diversos. O mais danoso é que muitos desses equívocos são causados por instinto de sobrevivência, oportunismo, revanchismo ou simples descaso para com nossas instituições. E isso ocorre justamente em um momento em que o país precisa demonstrar ao mundo um mínimo de segurança jurídica, estabilidade institucional e previsibilidade.

Em poucas semanas tivemos demonstrações de irresponsabilidade em praticamente todas as instâncias de poder. No Executivo, um ministro misturou pessoal com público, enquanto outro, de modo espalhafatoso, buscou seus cinco minutos de fama. No Legislativo, deputados mostraram um instinto de sobrevivência acima do bom senso cívico e retalharam medidas anticorrupção que, mesmo longe de perfeitas, carregavam oportunidades boas de avançar no quesito transparência. O Ministério Público, de salto alto por conta dos bons resultados em sua atuação no combate à corrupção e do consequente apoio popular, recusou-se a negociar com o Parlamento as tais medidas contra a corrupção. O Congresso, obviamente, se protegeria delas, mas, caso o MP tivesse mostrado mais jogo de cintura, teria saído com um resultado melhor, especialmente para nós, cidadãos.

O mais recente episódio de descaso institucional nasceu na Suprema Corte, por meio da desnecessária liminar do ministro Marco Aurélio Mello, que, de maneira monocrática, afastou um presidente do Senado Federal. Não se trata de uma defesa ao senador Renan Calheiros, mas de uma lembrança da importante posição de chefe do Legislativo, que não pode ficar refém de uma decisão liminar e individual. A resposta de Renan mostrou também falta de bom senso institucional. Já dizia o ex-ministro Ayres Britto: “A imprensa tem o direito de errar primeiro. A Suprema Corte, de errar por último.” Renan e a Mesa Diretora erraram. Deveriam ter acatado a decisão e esperado que o plenário do STF tivesse o bom senso que faltou ao ministro Marco Aurélio. É inaceitável que passemos ao mundo a mensagem de que a decisão da Suprema Corte não é respeitada.

O descompasso institucional de atores e instituições diversos, conforme referido acima, se agrava quando adicionamos um ingrediente explosivo: a imprensa e sua cobertura superficial e muitas vezes exagerada. Alguns elementos explicam a crise pela qual o jornalismo político passa.

Temos uma crise financeira que devastou a economia. Inúmeras posições foram cortadas, estruturas foram desmontadas, jornais perderam tamanho e a internet garantiu aos cidadãos acesso rápido e gratuito ao que acontece no mundo. Isso gerou uma corrida por clicks, curtidas e compartilhamentos que empobreceu e espetacularizou a notícia. O resultado é uma cobertura antiga, superficial, engessada, que não interessa à população. Ou uma cobertura sensacionalista, enviesada e, principalmente, oportunista.

Esta última é a mais perigosa, pois se aproveita do pensamento político binário que permeia o Brasil. Ou somos a favor das Dez Medidas Anticorrupção ou somos a favor da corrupção. Ou defendemos integralmente o juiz federal Sérgio Moro, à frente da Operação Lava-Jato, ou defendemos os bandidos dos quais ele, muitas vezes heroicamente, ousou ir atrás.

Essa imprensa sensacionalista aproveita-se da crise política com ares de House of Cards, gerando emoção e, por consequência, binarismo. O psicólogo e autor americano David McRaney, em seu brilhante livro You are not so smart, afirma que “opiniões são formadas após anos prestando atenção a informações que confirmam aquilo em que você sempre acreditou, ignorando dados que desafiam noções preconcebidas”.

O resultado pode ser perigoso: sociedades, partidos políticos e atores cada vez mais protecionistas, raivosos e incapazes de achar soluções ou meio-termos; uma imprensa que busca o confronto e não a reflexão; instituições que usam do apoio popular, na maioria das vezes pouco analítico, para empurrar agendas ainda pouco maduras.

Independentemente do assunto ou da agenda, o Brasil precisa se reacostumar a ter instituições fortes e regras claras que sirvam para todos, se quiser ser uma sociedade analítica e questionadora. Para se chegar a esse cenário positivo, a responsabilidade tem de ser de todos, principalmente daqueles que, de alguma forma, moldam o pensamento e a cultura política dos cidadãos.