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Governo respira com melhora do ambiente, mas crise não passou

O Tempo – 19/08/2015

Desde o início do período mais agudo da crise, há quatro meses, a semana que passou foi a mais positiva para a presidente Dilma. Ela colecionou uma lista de êxitos nas iniciativas que seu governo tomou para romper a paralisia do governo.

A mais importante foi o seu entendimento com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com o objetivo de neutralizar a pauta-bomba preparada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em contrapartida, ela perfilhou a Agenda Brasil, lista de 28 pontos elaborada a quatro mãos por Renan e pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sob inspiração do primeiro.

Junto com a retomada do diálogo com Renan, uma fonte de benefícios para o Planalto, veio a virada do jogo nos tribunais, onde a presidente enfrenta dois processos: no TCU, a apreciação das contas de 2014 com viés original de desaprovação, e no TSE, um pedido de investigação das contas da campanha de 2010 com risco de impugnação.

No primeiro, o plenário tenderia a ser mais flexível, e na Corte eleitoral a tendência é de um rito do julgamento lento, que dificilmente acrescentará pressão ao conjunto de ingredientes que alimentam a crise. A decisão do Supremo que retira da Câmara a exclusividade na apreciação das contas do governo e inclui o Congresso entre os juízes do caso também soma pontos favoráveis à presidente. As viagens a Roraima e a São Luís, quando Dilma anunciou medidas de reforço a programas sociais e dialogou com a população, completaram o ciclo favorável.

O clima político que passou a soprar, contudo, não pode ser tomado como garantia de bonança. As manifestações de fim de semana e uma carta do presidente da OAB sugerindo à presidente pedir desculpas pelos erros que cometeu sinalizam que é preciso trabalhar muito para que as conquistas sejam sustentáveis.

A partir de sinalizações do establishment negando apoio ao impeachment e a favor de uma solução rápida para a crise, quatro personagens considerados pilares da presidente Dilma entraram em ação e reduziram a pressão política. Essas referências são o ex-presidente Lula, o vice-presidente Michel Temer (PMDB), o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Apesar do atual distanciamento entre Dilma e Lula, o ex-presidente continua exercendo papel fundamental na interlocução com políticos e movimentos sociais. Na semana passada, Lula teve encontro com importantes lideranças do PMDB para retomar o diálogo com a legenda. Da mesma forma, tem sido essencial para estabelecer uma ponte entre o governo e os movimentos sociais.

O vice-presidente Michel Temer é a ligação mais forte entre o PT e o PMDB. Dele depende a permanência do partido na base. Será ele também quem definirá o timing da união entre as duas legendas, já que o PMDB não quer continuar com o PT na eleição presidencial em 2018.

Por meio de Renan Calheiros, a presidente está tentando melhorar sua relação com o Congresso, que sofreu forte abalo depois de Eduardo Cunha ter anunciado rompimento com o Executivo. Joaquim Levy é o principal fiador do governo no mercado e entre as agências de classificação de risco.

Além da agenda fiscal, Levy articula com o Congresso outra destinada a estimular a economia. Sua presença nessas conversas tranquiliza o setor financeiro a respeito de um possível pós-ajuste que evite medidas populistas ou que aumente o gasto público.