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Guerra das Águas – Três Potenciais Conflitos de Alto Risco

Linkedin – 19/12/2016

Por Thiago de Aragão

 

Com o Médio Oriente afundado em conflitos e vivendo o início de sua versão da “Guerra dos Trinta Anos”, as atenções do mundo concentram-se nos violentos conflitos que passam invariavelmente por essa região. No entanto, longe da dali três áreas apontam para crises e merecem atenção. Podem desembocar em conflito armado, apesar de dois deles terem potencial maior de guerra fria. Coincidentemente, as três zonas de tensão estão relacionadas a água. Não necessariamente para o consumo, mas com papel determinante no controle geopolítico de seus respectivos mapas.

Em primeiro lugar, está a busca pelo domínio marítimo do Mar do Sul da China, sob todos os aspectos emblemático. Não se trata apenas de uma disputa por controle geopolítico entre as duas principais potências do mundo: EUA e China. É um teste da capacidade chinesa de manter seu fluxo comercial em uma área delicada e o efetivo poder americano de eventualmente asfixiar esse fluxo de entrada e saída. A China se tornou uma potência marítima recente e, quando se deu conta da importância disso, percebeu que os EUA têm forte influência marítima na região, formando um cinturão em todo o litoral chinês.

A saída para o Pacífico, por exemplo, obrigaria a China a navegar por águas solidamente controladas pelas marinhas da Coréia do Sul e do Japão, além da própria marinha americana. Já no Sul, onde a grande maioria das exportações e importações chinesas passa pelo estreito de Malacca (apenas 3 km de largura), os EUA construíram um cinturão de influência envolvendo todos os países que circulam a área de navegação chinesa até o estreito de Malacca (Vietnã, Malásia, Brunei, Filipinas, Taiwan e Indonésia).

Por causa disso, o governo chinês declarou que o Mar do Sul da China representa uma extensão natural de sua fronteira marítima, construindo, inclusive, ilhas artificiais para que a presença de sua marinha nesse mar seja justificada pelo caráter defensivo. O Vietnã, por mais que seja um país comunista, olha a China com desconfiança e vice-versa. Os EUA têm uma presença marítima forte nessa mesma região. A escalada de um conflito ainda é remota. No entanto, o controle do Mar do Sul da China é uma realidade, com investimentos pesados de ambos os lados, e financiamentos robustos para que os países do cinturão desse mar possam ampliar suas capacidades navais. Quem controla o estreito de Malaca pode asfixiar parte do comércio chinês de uma forma que exigiria uma resposta firme de Pequim.

No caso do Mar Negro, segunda área de nosso diagnóstico, o potencial conflito, mesmo que indireto, envolveria EUA e Rússia. Mais precisamente, Rússia versus OTAN. Desde a anexação da Criméia, há quase três anos, a Rússia pode, finalmente, contar com um porto de águas quentes: Sebastopol. Este porto, por mais que fortaleça a capacidade marítima da Rússia, ainda não representa um acesso simples ao mar, pois o estreito de Bósforo ainda se coloca como uma barreira natural.

Para um observador desse intrincado xadrez militar, a atitude russa na Ucrânia era altamente previsível. O risco de a Ucrânia se juntar à UE na época e, consequentemente, à OTAN, era uma ameaça que a Rússia não poderia tolerar. Com sua intervenção, não só o porto de Sebastopol foi tomado, como se delineou a fronteira mais tensa entre a OTAN e a Rússia: a Moldávia, a oeste da Ucrânia. A Romênia, que faz fronteira ao Norte com a Moldávia, busca cada vez mais ser um leal membro da OTAN e ter uma aproximação fortalecida com os EUA, pois tem a dimensão do caráter estratégico do Mar Negro.

A Ucrânia, que faz fronteira ao Sul com a Moldávia, está cada vez mais dentro da esfera russa, como sempre esteve, desde a tentativa frustrada de ingresso na União Europeia. A Rússia leva vantagem sobre a influência na Moldávia, apesar de o idioma romeno predominar: conta com 2.000 soldados estacionados no país, além de uma enorme população descendente de ucranianos e pró-russos vivendo no país. Hoje a Rússia dispõe de uma frota em contrução de 95 embarcações entre navios e submarinos, enquanto a Romênia busca atingir uma força nunca antes atingida nessa região.

Com o controle do Mar Negro, o último bastião de influência contrária que os EUA teriam, seria a Turquia, detentora do estreito de Bósforo. Sem isso, a Rússia poderá se tornar uma potência marítima e ter uma vantagem nunca antes tida no Mediterrâneo. Como zona de influência ocidental, dificilmente os EUA e a OTAN deixarão isso ocorrer.

A terceira região que merece atenção especial está na África. Mais precisamente, no Egito e no Sudão. O Rio Nilo, símbolo da prosperidade e da civilização egípcia, se torna um importante centro de disputas geopolíticas entre dois países que estão em forte crescimento militar. Hoje o Nilo e sua bacia afetam diretamente dez países, no entanto é o Egito e a Etiópia que possuem um poder diferenciado sobre o rio.

Em conjunto com a China, a Etiópia está construindo uma usina hidrelétrica desde 2011, com expectativa de conclusão em 2020, que poderá, potencialmente, frear e asfixiar o fluxo de água do Nilo para o Egito. Isso prejudicaria não só sua navegabilidade, que se trata de um vital mecanismo de comércio doméstico e exterior para o Egito, como também o fluxo de água que abastece quase toda a população de 80 milhões do país.

Obviamente, o interesse explícito dos etíopes, seria o salto econômico que a nova fonte de eletricidade poderia promover. A construção desta usina e, consequentemente, de uma barragem, vem causando calafrios no governo egípcio. Seus governantes já cogitaram em mais de uma oportunidade, bombardear a construção da barragem. Isso não só atrasaria a obra, como poderia causar uma inundação sem precedentes não só na Etiópia, como no Sudão.

O envolvimento chave da China na construção da usina poderia elevar o conflito a níveis alarmantes. Certamente os EUA não apoiariam um ataque egípcio (dependendo de quem for eleito presidente em novembro), mas a China poderia abastecer o exército etíope, que vem crescendo solidamente, gerando um potencial conflito complicado no nordeste da África. O comércio da região seria fortemente danificado, sem falar nas vidas afetadas. A obra financiada pela China demonstra que o país enxerga na África um depósito de matérias primas vitais para seu desenvolvimento, bem como uma área de influência que os EUA e a Europa há tempos vêm deixando de lado.

Esses três exemplos ilustram como o mundo possui diversos focos de potenciais conflitos, de todas as naturezas imaginadas. Se o Brasil não é afetado geopoliticamente, comercialmente são situações que o país certamente precisa monitorar e ter o que dizer no caso de algo sair do controle.