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Paralisia e autoengano

Blog do Noblat – 10/09/2015

Imaginem um navio parado naufragando lentamente. De longe se ouve a balbúrdia. Alguns marinheiros tratam de acionar as bombas, enquanto outros abrem buracos para entrar mais água. As ações são contraditórias. O navio fica mais ou menos na mesma. Contudo, o perigo de naufrágio continua iminente.

A atual conjuntura política no Brasil apresenta um quadro semelhante. O governo não naufraga, mas tampouco se recupera. Não naufraga pela falta de condições políticas para “finalizar” o mandato da presidente Dilma Rousseff. Nem se recupera pela sequência quase inacreditável de trapalhadas que produz.

Prosseguindo nas analogias marítimas, existem alguns no governo que parecem querer jogar a embarcação sobre as pedras. Resistem aos cortes, não dão importância à eventual perda do investment grade nem se mobilizam para atuar na linha do que todos desejam: recuperar o mais rapidamente possível a credibilidade econômica e fiscal.

Ao lado das trapalhadas políticas, o governo Dilma se sacrificou politicamente ao tomar medidas duras no campo dos preços administrados e na política cambial. No entanto, ao enfrentar o rombo fiscal, titubeou e está fugindo da raia. Mandou uma proposta orçamentária covarde. Poderá voltar atrás adiante.

Quando, dias atrás, o vice-presidente, Michel Temer, disse o óbvio – que governo nenhum resiste muito tempo com baixa popularidade —, houve uma grita exagerada. Não foi uma mensagem conspiratória. Foi, simplesmente, a constatação de uma realidade não reconhecida por muitos da alta cúpula.

O risco do autoengano é ainda pior porque as soluções que se apresentam tendem a mascarar o fato. Não há um pleno reconhecimento dos erros. Aqui e ali, de forma tímida e envolvida em muitos véus, surge um mea-culpa. Não convence. As soluções são parciais e mal embaladas. Agora o Planalto pretende aumentar os impostos sem mostrar o corte de gastos que todos esperam. E sem atacar algumas das questões estruturais, como os gastos com a Previdência Social.

Pouco mais de seis meses após a posse de Dilma, o governo envelheceu de forma irreversível. Para sobreviver terá que se reinventar. Elaborar um plano amplo de reestruturação ministerial. Adequar o ministério à base política e não ao contrário. Blindar áreas críticas com nomes acima de qualquer partidarismo. Dar força a uma política fiscal austera. Melhorar radicalmente o ambiente de negócios. Ampliar espaços para o investimento estrangeiro no país. E reafirmar o compromisso com a honestidade e a moralidade públicas.

A receita é simples. Duro é fazer. Governos e governantes devem saber dizer não aos interesses corporativistas. . Devem assumir seus erros e apontar novos caminhos. Não é o que ocorre. Ao contrário. As imagens projetadas e seus atos nos levam ao sentimento de que é preciso o país piorar muito para começar a melhorar.